sexta-feira, 31 de julho de 2015



            Num primeiro momento sobe a indignação com a barbárie diária, a violência canibal da metrópole. Depois uma certa compaixão e auto-piedade por estarmos meras vítimas de um sistema explorador e desumano. Daí a sensação de que nada pode ser feito sem que tudo na sociedade seja mexido, principalmente as cabeças.
            E assim estou eu catatônica na poltrona ao me deparar com o caráter crônico dessa doença social chamada corrupção. Uma epidemia que se alastra na velocidade da luz, que revira os valores pelo avesso e de certa forma justifica o avanço da criminalidade, especificamente do tráfico, seja de influência, seja de drogas.
            É guerra, mas não uma guerra dele ou dela, é uma temível guerra civil não declarada entre sociedade e poder corrompido que se aprofunda e se densifica nos centros, nas periferias, morros, favelas...
            À semelhança de dezenas de outros movimentos revolucionários o tráfico de drogas se revela mais político que econômico conseguindo estabelecer uma rede de engajamento de adeptos e arrastar atrás de si uma multidão de pessoas que o aceita e até o defende. Pessoas que acreditam ser esta a única maneira de lidar com a opressora máquina de opressores e oprimidos sem sucumbir.
             E as drogas denominadas “pesadas” como a cocaína, heroína e crack vão servindo como bode expiatório para o câncer social gerado pela desigualdade  econômica.
            No meio, entre os favelados guerrilheiros e a podre elite, navega a classe média aterrorizada com os assaltos, sequestros e assassinatos dos quais são a maior vítima. Desesperançada, voluntariamente se alheia aos desmandos do governo, assiste a tudo praticamente sem ânimo para desafiar o alicerce que sustenta esse país, a corrupção.
            A guerra de cada um agora é se manter vivo e são da cabeça e continuar lendo e acompanhando os jornais. Com um aperto no estômago sair para trabalhar fingindo que não vê o que se passa com o vizinho, colocar grade e cadeados nas portas e janelas, não passar perto de policial e nunca, mas nunca mesmo acreditar em discurso político.


"A você que acende todas as luzes da sua casa na tentativa de iluminar a si mesmo, uma oração. A você que diariamente vem a mim como a um templo em busca de uma razão pra viver, um sopro de paz. A você, ser vivo inconcluso, que se espelha em mim como a um fiel diante da estátua de seu Deus, uma prece. A você, partícula que ainda vela e lamenta a carcaça do que poderia ter sido, uma bênção. A você, ser movente longe da consciência da própria existência, fisicamente débil, espiritualmente distante de si, um pensamento de paz. Que os mensageiros divinos se apiedem e levem essa prece para as alturas e que assim possam mostrar-lhe a saída dessa prisão escura onde vive, desse passado doloroso, quase insuportável, livrando sua alma desse fardo imenso da solidão e ajudem você a encontrar um caminho para si mesmo e para a felicidade eterna. Rezo para que um dia você consiga fazer as escolhas certas ainda nessa vida e que em lugar de levar a discórdia, leve paz aos seus, e que, após doze anos tateando no escuro, você finalmente consiga se libertar dessa bola de ferro atada à perna. Que a paz esteja com você hoje e sempre. Amém."
Ser contemporâneo seria escrachar a vida íntima, ultrapassando as barreiras entre público e privado? Seria transportar para o universo virtual tudo que fazemos, comemos, pensamos? Estar sempre correndo contra o tempo, se entupindo de remédios pra dormir, ansiolíticos, calmantes? É ter síndrome do pânico e se enterrar na frente de um computador deixando a vida real fora da rotina? Ou quem sabe, ser radical no discurso, matar porque o outro não compartilha da mesma ideia que eu? Talvez...Talvez ser contemporâneo seja tudo isso com mais uma dose de insegurança, de perda de valores éticos e de destruição de referências morais, estéticas, filosóficas, religiosas, políticas...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

rabiscos coloridos

São poucas, são frágeis, são quase vazias às vezes... na verdade elas nunca dizem o que devem dizer, deturpam, confundem... até mesmo quando escrevo falando sobre elas, elas brincam de não significar... são estúpidas e cruéis ao mesmo tempo...

mas como é só disso que dispomos... que seja com elas então, que se tracem linhas, páginas se encham, idéias se proliferem e tenham suas bases assim, nelas... ou seja... seja qual for a idéia, a crença, a verdade... já estarão fadadas a não serem propriamente a idéia sentida e pensada, a crença, a verdade... por que o sentir ele é imenso, ele é cheio... e a gente é cheio dele... e ele sai pelos poros, pelos olhos, pelas mãos, pelo cheiro, pela voz e muitas vezes tenta se traduzir nas palavras... mais pobres que nós que as criamos...

eu ando por aqui... no mesmo lugar..ainda... essa angústia, essa espera se explicam por si só... esse presságio... que por essas coisas é que me pergunto o quanto estamos ligados... me pergunto, me pergunto... não vou sumir da sua frente outra vez... talvez você o faça, talvez você simplesmente desapareça... mas dessa vez tudo sempre ficará muito claro... muito falado, por mais que as palavras nos traiam, elas são a única coisa que temos que nos prova que somos dignos de sermos chamados de humanos...

e é por isso que você chega, aparece do nada, de repente, pra mexer... pra inquirir, pra desestabilizar, pra deixar a estrada mais clara... sei lá... não... eu não virei névoa... nem nunca serei névoa, sou de verdade agora... sinto meus pés no chão...e a chuva...sim...quando nos molha o corpo... sim, quando pára de repente... e a energia que nos encanta... a mesma que nos fez nos reencontrar depois de tudo, ou melhor, depois de uma parte... que parte é essa de agora??? também sinto ímpetos de falar-lhe, mas parecido com você não posso... outras razões me congelam... você ainda está incomunicável pra mim, você de uma certa forma também é névoa porque não posso atingi-lo quando assim o desejo... porque pertence a um mundo estrangeiro que não posso nem devo tocar, mas esperar que venha até mim e abrir as portas e dizer, ok, agora você tem alguns minutos... daí eu entro, sento, converso um pouco, tento compreender um pouco do que vejo, toco, cheiro e, plim... acabou o tempo... eu ainda estou aqui...mas de um jeito irônico passando pelas mesmas dificuldades que você... de decisões, de perguntas... e você diz... você sumiu de novo... foi somente um breve intervalo de duas horas, penosas devido à conexão ruim, devido às torres de telefonia não serem tão eficientes, devido à chuva talvez, a mesma que molhou você e deixou você feliz, que lavou você, levou pra longe uma parte de você que talvez você realmente não queira mais... e depois das duas horas... eis minha voz...outra vez atendendo seu chamado... que não atendera antes não por que não quisesse... fatores externos... sinônimos dos que me impedem também de falar-lhe quando tenho vontade...agora por exemplo... queria compartilhar esse crepúsculo, chuva, o friozinho da noite chegando, vasculhar bem direitinho tudo isso, desvendar...

bendita, maldita racionalidade... se bem que você compartilha logo... senão... acenava já o que sempre aparece... pra todo mundo, viciado no depois eu faço, depois eu digo... a racionalidade do dia-a-dia... minando, apodrecendo o que há de melhor na vida... comandar a chuva, querer ela e depois não querer mais e ela obedecer você... os anos obedeceram ao nosso querer... não o que mais vai obedecer, aliás não sei nem qual é o querer de agora... ou melhor... não sei o que está por trás... só sei que agora mesmo meu querer quer estar perto e ouvir mais palavras de você...

sábado, 10 de julho de 2010

As chaves

Andam, falam, respiram, olham para mim. Mas estão longe, afastei. Deitavam-se comigo, tocavam meu corpo, lambiam minha boca. Exploravam minha pele à luz do dia, à noite, nos quartos, na praia, em cima das mesas, no chão, escondido, durante horas, dias, meses, anos.
Ao som de aves noturnas, de música, de gemidos, de lamentos... Lindo, sempre lindo, sempre quente, suave, sedutor. Passeando os dedos, desenhando as linhas, as curvas, os vales. Deixando pela janela passar o calor, deixando se dissipar o vapor noite adentro, no céu sem nuvens, negro e imenso. Incenso. Corpos brasa, corpos cinza fumaçando, perfumando. Girava na fechadura, noite após noite. E cada noite era como se fosse a primeira volta, não abria nunca. Beijava, suava, inchava os lábios, marejava os olhos. Expunha o cordeiro transpassado, mantinha o corpo rijo, os braços trêmulos a segurar o sacrifício, os joelhos sangrando e o rosto desfigurado. Encardia a alma em grandes goles, banhando os dias na água imunda das poças do calçamento, estendia o resto do corpo ao sol, com pegadores num varal. As manchas, tingidas, os rasgos, remendados e a dor, encimentada.
Outra chave... Meus passos, longos, rápidos, certeiros numa cegueira crônica. Meus braços arreganhados cavando no solo seco, arrancando as pedras, raízes, enchendo as unhas de terra preta, arranhões, espinhos, sede, sertão, pele perfurada, um mandacaru. Risos e a brecha entre as palavras. A dica.
Entre as flores a mão apanhando a promessa. Colhendo o alento, o cálido beijo sob o mesmo céu negro e sem nuvens, o toque na pele, a silhueta contra a luz, o corpo abrindo as fendas, a mesma pele, os mesmos olhos, os mesmos lábios. O mesmo toque devastando os sentidos, mas girando sem nunca abrir. Falsas pistas e o solo seco, as mãos machucadas, os olhos quebrados, o coração em dois, três, quatro, cinco...
Jardim pisoteado, desmatamento, degelo polar, avanço do mar.
Feridas profundas e a fechadura inerte... Você, paraíso na Terra, sangue efervescente, meu corpo satisfeito sobre os lençóis, minha existência nos umbrais, de frente, porta imensa, nenhum giro...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

De um corpo

Três casas. Em cada caso uma história e um homem depois de três anos. Novecentos e poucos dias tecendo, tecendo... grudando as esquinas do teto ao teto. Pra mais tarde o tempo espanar.
E ela, sendo apenas uma, repuxa, com as patas finas e frias, as pontas da teia num arremate irônico de vida e morte. Ajoelhada, ao lado de um corpo inerte, se dispõe a chorar profundamente. Chora a casa que não lhe pertence, os pais do segundo a caminho, o primeiro ex na cozinha lavando as mãos e fazendo panos quentes, o terceiro, estendido no chão de um dos quartos, com o pescoço maculado por dedos.
Talvez pegasse treze anos... pensava... a sensação de sabê-lo preso entre estranhos a apavorava. O nervosismo aumentava à medida que o via circular arrumando objetos à toa, que o via caminhar devagar à espera...
Tentou arrumar as pernas, os braços do corpo... em breve poderia ser enterrado a contento. Exasperava-se com a teimosia morna dos membros.
Olhou ao redor, para o teto, as paredes brancas, sem saber o que era que precisava desejar. Salvar o plácido assassino que flutuava por entre a mobília empoeirada... evitar que o segundo e sua família flagrassem o trágico arremate... se entregar ao choro convulsivo na perda para sempre... Tonta, a cabeça quente, os olhos quase cegos, o dorso jogado sobre o corpo, o rosto fervia entre os braços cruzados... a alma soluçava beirando a inconsciência.
Um lampejo louro, um anjo talvez... sugere, em meio à brisa calma da tarde, um sopro de vida movendo o corpo, ainda... Quase sem querer, ela pára o circo, ergue-se incrédula.
O pescoço dele...
...pulsava.
E os olhos...
...estavam novamente nos dela.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Não abra

Treme.
Balança rápido. As ancas vão de um lado para o outro. Depois é devagar... suave. Sacudindo o hálito para fora, hálito quente sem fumaça.
Sou eu batendo na porta que você não abre. E o cheiro?
É ela que está aqui, seu coração acelera e você tem medo de abrir os olhos.
Não abra porque dói. E é uma dor crônica...que não lateja, apenas cansa o corpo, embaça os sentidos. Você pode se perder na sua própria escuridão...e aí... talvez...sem querer você acabe gostando de estar longe da luz.
Não acenda nada. Você não vai querer ver. E depois descobrir que se furou.
Vai por baixo da porta, a madeira não veda o ar. Só a dúvida...ela sim... ela pode manter você assim, a salvo, mesmo que incomode...nunca será muito. Não olhe pra mim agora... Vire o rosto, o corpo e caminhe devagar pra não levantar poeira, pra não deixar marcas na areia, não sujar seus sapatos. E ao descalçá-los ser inevitável lembrar-se da estrada.
Sinalize para a direita, mas gire o volante para a esquerda, enganando a marcha, apagando as poucas evidências, as frágeis memórias.
O meu máximo é por baixo da porta, pelo buraco do trinco, das fendas, do encontro das dobradiças. É no silêncio ao se apertar a tecla power do televisor, ao se caminhar para a cama sem ter bebido nada alcoólico antes, no meio das folhas dobradas e guardadas entre notas fiscais antigas, documentos esquecidos, passado. É nas letras de caneta azul num boné branco, nas pedrinhas coloridas que vieram de longe para enfeitar sua mesa e que agora dormem no fundo de uma gaveta ou talvez já residam há muito numa calçada de uma cidade para a qual você não voltará.
Ou talvez tenham se encontrado com aquele anel que partiu faz tempo.
E quando você pensar que ainda lá estou, dançando com minhas saias coloridas, ao pé da porta com os olhos vermelhos e um sorriso enorme nos lábios, quando, viciado no cheiro, não souber mais divisar silêncio e respiração, lembrando da piscina de caracóis onde gostava de mergulhar... não avance. Deixe o trinco inerte, não gire a chave. Apenas respire o mais fundo que puder. Busque a lua no céu escuro e tente ver o reflexo daqueles olhos que esperaram. O reflexo ainda estará lá, esperando. E ao encontrá-lo mantenha-se assim, envolto nele, antes que, finalmente, se desvaneça após tão longa espera. Se não puder se conter, recorra aos sons, linhas, formas quase sublimadas de cada pedacinho, cada curva, cada poro e pelo que por ventura ainda repousem em sua memória. Abrace o ar e, se puder, deixe cair uma lágrima, deixe sua alma lavar os derradeiros grãos de poeira, juntando tudo num pequeno montinho úmido... que talvez, com um pouco de sorte, seja suficiente pra esculpir algo palpável. Afaste-se da porta enquanto sua cabeça ainda conseguir pensar, enquanto ainda quiser sua doce paz, sua tranquilidade confortável, sua luz artificial. Ande. Mas ande devagar, pondo um pé lentamente após o outro, segurando a respiração, fechando os olhos. Se preciso for, apoie-se numa das paredes do corredor e vá deslizando os dedos até encontrar o interruptor. Siga até seu quarto e deite-se de lado sem esticar o braço. Espere. O sono virá e você acordará à luz do sol, esquecido dos últimos segundos de sua última noite, você seguirá ileso... embora... você saiba que aquela não fora uma última noite... e que mais tarde você estará novamente de pé olhando para a porta, meio sonâmbulo, ouvindo uma música que não estará tocando no rádio, sentindo um cheiro que você conhece...resistindo a muito custo ao impulso de tocar no trinco...porque atrás da porta, no meio da escuridão... todas as coisas das quais você fugiu irão entrar de uma só vez, roubando você de você mesmo...
Sendo assim... não abra.

domingo, 20 de junho de 2010

albatroz

Dentro daqueles dias de ficar parada, num silêncio diferente, numa ausência estranha... e aí eu levanto, abro a agenda, passo a vista nos afazeres (mil), suspiro angustiada e fecho o caderninho... desligo o celular, desisto de tomar banho e não consigo decidir o que fazer primeiro, a vontade é deitar e me deixar ficar assim por alguns dias... daí me lembro de quando eu desperto após fazer isso... acordo sem rumo, sem centro, sem relógio, sem mim e eu queria ter encontrado você aqui dentro de mim durante esses dias... mas você não está lá... eu abri a janela, estiquei as asas e encerrei o texto, mas o albatroz continuou lá, existindo perante a janela, olhando a cidade à noite, assim ficou por vários instantes... e para minha surpresa não abriu as asas, não partiu, não alçou vôo...
e eu juro que esperei, não o apressei... e tampouco lhe pedi uma decisão definitiva, apenas que fizesse o que desejasse para si, lá do mais fundo de seu pequeno coração... e assim o fez, se afastou da janela, baixou a cabeça, fechou os olhinhos e recolheu as asas para repousar... e eu nada pude fazer, apenas observar, como disse, deixei-o livre, completamente, apesar de todos os receios...
daí peguei minha mochila e parti, fui pra casa, fui pra longe, pra tentar entender o que se passara, pra conseguir enxergar bem, estando longe de você e dele, pensei que talvez assim eu ficasse mais perto de mim...
... e lá, dentro do silêncio, quando finalmente me permiti ouvi-lo, só escutei ondas quebrando no mar, uma após a outra, ritmadas... sabia que muitas pessoas estavam lá sem que eu as visse, mas que não as via porque não as buscava, o rosto que queria ver não estava lá...
perdão...
muito embora eu não tenha pecado... muito embora eu tenha sido todo o tempo a não certeza de qualquer coisa...muito embora nada seja definitivo numa vida...
parto outra vez, parto pra escutar o resto... e clarear as vistas...