sábado, 10 de julho de 2010

As chaves

Andam, falam, respiram, olham para mim. Mas estão longe, afastei. Deitavam-se comigo, tocavam meu corpo, lambiam minha boca. Exploravam minha pele à luz do dia, à noite, nos quartos, na praia, em cima das mesas, no chão, escondido, durante horas, dias, meses, anos.
Ao som de aves noturnas, de música, de gemidos, de lamentos... Lindo, sempre lindo, sempre quente, suave, sedutor. Passeando os dedos, desenhando as linhas, as curvas, os vales. Deixando pela janela passar o calor, deixando se dissipar o vapor noite adentro, no céu sem nuvens, negro e imenso. Incenso. Corpos brasa, corpos cinza fumaçando, perfumando. Girava na fechadura, noite após noite. E cada noite era como se fosse a primeira volta, não abria nunca. Beijava, suava, inchava os lábios, marejava os olhos. Expunha o cordeiro transpassado, mantinha o corpo rijo, os braços trêmulos a segurar o sacrifício, os joelhos sangrando e o rosto desfigurado. Encardia a alma em grandes goles, banhando os dias na água imunda das poças do calçamento, estendia o resto do corpo ao sol, com pegadores num varal. As manchas, tingidas, os rasgos, remendados e a dor, encimentada.
Outra chave... Meus passos, longos, rápidos, certeiros numa cegueira crônica. Meus braços arreganhados cavando no solo seco, arrancando as pedras, raízes, enchendo as unhas de terra preta, arranhões, espinhos, sede, sertão, pele perfurada, um mandacaru. Risos e a brecha entre as palavras. A dica.
Entre as flores a mão apanhando a promessa. Colhendo o alento, o cálido beijo sob o mesmo céu negro e sem nuvens, o toque na pele, a silhueta contra a luz, o corpo abrindo as fendas, a mesma pele, os mesmos olhos, os mesmos lábios. O mesmo toque devastando os sentidos, mas girando sem nunca abrir. Falsas pistas e o solo seco, as mãos machucadas, os olhos quebrados, o coração em dois, três, quatro, cinco...
Jardim pisoteado, desmatamento, degelo polar, avanço do mar.
Feridas profundas e a fechadura inerte... Você, paraíso na Terra, sangue efervescente, meu corpo satisfeito sobre os lençóis, minha existência nos umbrais, de frente, porta imensa, nenhum giro...

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