segunda-feira, 28 de junho de 2010

Não abra

Treme.
Balança rápido. As ancas vão de um lado para o outro. Depois é devagar... suave. Sacudindo o hálito para fora, hálito quente sem fumaça.
Sou eu batendo na porta que você não abre. E o cheiro?
É ela que está aqui, seu coração acelera e você tem medo de abrir os olhos.
Não abra porque dói. E é uma dor crônica...que não lateja, apenas cansa o corpo, embaça os sentidos. Você pode se perder na sua própria escuridão...e aí... talvez...sem querer você acabe gostando de estar longe da luz.
Não acenda nada. Você não vai querer ver. E depois descobrir que se furou.
Vai por baixo da porta, a madeira não veda o ar. Só a dúvida...ela sim... ela pode manter você assim, a salvo, mesmo que incomode...nunca será muito. Não olhe pra mim agora... Vire o rosto, o corpo e caminhe devagar pra não levantar poeira, pra não deixar marcas na areia, não sujar seus sapatos. E ao descalçá-los ser inevitável lembrar-se da estrada.
Sinalize para a direita, mas gire o volante para a esquerda, enganando a marcha, apagando as poucas evidências, as frágeis memórias.
O meu máximo é por baixo da porta, pelo buraco do trinco, das fendas, do encontro das dobradiças. É no silêncio ao se apertar a tecla power do televisor, ao se caminhar para a cama sem ter bebido nada alcoólico antes, no meio das folhas dobradas e guardadas entre notas fiscais antigas, documentos esquecidos, passado. É nas letras de caneta azul num boné branco, nas pedrinhas coloridas que vieram de longe para enfeitar sua mesa e que agora dormem no fundo de uma gaveta ou talvez já residam há muito numa calçada de uma cidade para a qual você não voltará.
Ou talvez tenham se encontrado com aquele anel que partiu faz tempo.
E quando você pensar que ainda lá estou, dançando com minhas saias coloridas, ao pé da porta com os olhos vermelhos e um sorriso enorme nos lábios, quando, viciado no cheiro, não souber mais divisar silêncio e respiração, lembrando da piscina de caracóis onde gostava de mergulhar... não avance. Deixe o trinco inerte, não gire a chave. Apenas respire o mais fundo que puder. Busque a lua no céu escuro e tente ver o reflexo daqueles olhos que esperaram. O reflexo ainda estará lá, esperando. E ao encontrá-lo mantenha-se assim, envolto nele, antes que, finalmente, se desvaneça após tão longa espera. Se não puder se conter, recorra aos sons, linhas, formas quase sublimadas de cada pedacinho, cada curva, cada poro e pelo que por ventura ainda repousem em sua memória. Abrace o ar e, se puder, deixe cair uma lágrima, deixe sua alma lavar os derradeiros grãos de poeira, juntando tudo num pequeno montinho úmido... que talvez, com um pouco de sorte, seja suficiente pra esculpir algo palpável. Afaste-se da porta enquanto sua cabeça ainda conseguir pensar, enquanto ainda quiser sua doce paz, sua tranquilidade confortável, sua luz artificial. Ande. Mas ande devagar, pondo um pé lentamente após o outro, segurando a respiração, fechando os olhos. Se preciso for, apoie-se numa das paredes do corredor e vá deslizando os dedos até encontrar o interruptor. Siga até seu quarto e deite-se de lado sem esticar o braço. Espere. O sono virá e você acordará à luz do sol, esquecido dos últimos segundos de sua última noite, você seguirá ileso... embora... você saiba que aquela não fora uma última noite... e que mais tarde você estará novamente de pé olhando para a porta, meio sonâmbulo, ouvindo uma música que não estará tocando no rádio, sentindo um cheiro que você conhece...resistindo a muito custo ao impulso de tocar no trinco...porque atrás da porta, no meio da escuridão... todas as coisas das quais você fugiu irão entrar de uma só vez, roubando você de você mesmo...
Sendo assim... não abra.

Um comentário:

  1. Um texto tenso que nos tira o fôlego... eu abriria a porta:)
    Uma estrutura Saramaguiana diria eu, em homenagem ao Gajo que nos deixou com tantas dúvidas. Versos conexos e extensos, nem as pontuaçoes sao capazes de reter o tempo da narrativa.
    Bjos

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